Errar é primordial para o nosso crescimento empresarial.

Errar é primordial para o nosso crescimento empresarial.

19/06/2020 0 Por Sidney Ferrer

Com métodos que não poderíamos chamar exatamente de heterodoxos, tais como instalar uma versão digital da empresa dentro das empresas que atende e cobrar paixão e dinamismo com tal veemência que beira o fascismo corporativo, o growth hacker Sidney Ferrér tenta traduzir para os seniors de plantão (gerações anteriores aos Millennials), como reconquistar a dignidade e crescimento empresarial, além dos lucros neste novo ecossistema ‘’dominado por profissionais mais jovens’’.

Murillo Oliveira, Da Redação.

Um paladino das gerações.

Aos 51 anos, o paulista Sidney Ferrér acumula experiências dentro da rotina corporativa em seus mais de 30 anos de carreira. Já atuou em pequenas, médias e grandes corporações. Por onde ele passou, nunca deixou a paisagem como havia encontrado. Ele não é proprietário de nenhuma grande empresa atualmente, muito menos possui um cargo de destaque em uma multinacional. Mas o interessante não é isso: Ferrér está se tornando uma espécie de paladino das gerações Veteranos, Baby Boomers e X ao investir boa parte do seu tempo na imersão deste público na chamada Cultura da Transformação Digital, pois definiu que estas pessoas são as maiores vítimas do preconceito etário, oriundo da ‘’onda jovem’’ que se abateu no mercado.

A virada digital!

Há quase uma década, Ferrér foi impactado pela filosofia da ‘’Startup Enxuta’’ de Eric Ries e de lá para cá vem absorvendo e estudando as mudanças que a Nova Economia tem causado na vida das gerações que antecedem os Millennials, protagonistas da ‘’virada digital’’.

Contudo, com o aumento da crise financeira e política no Brasil, alcançando patamares quase insuportáveis e culminando com índices de desemprego absurdos, todas as gerações foram impactadas negativamente. Porém, o publicitário, gestor de vendas e palestrante identificou nos indivíduos com mais de 40 anos um ‘’estrago maior’’. Assim, resolveu ajudar seus contemporâneos.

Sentiu na própria pele.

Segundo o mesmo, esta dedicação tem explicações bem simples. A primeira delas é que como um profissional forjado analogicamente, sentiu na pele as mudanças no mercado com o advento da tecnologia e a ascensão dos jovens empreendedores. Como, aliás, profetizou Bill Gates (Microsoft): “ Respeite os nerds. Um dia Eles serão seus chefes. ’’  

A segunda explicação Ferrér chama de Give Back. Na verdade uma prática nos países desenvolvidos, onde os empresários de sucesso, após atingirem certos patamares em suas carreiras, se afastam dos negócios e se dedicam a contribuir com a sua área de atuação. Give Back, portanto, nada mais é do que retribuição.

‘’Me sinto em dívida com os mestres e mentores que tive durante toda uma vida. Seniors de sucesso, ocupadíssimos, que dedicaram seu tempo e tiveram muita paciência comigo’’, afirma o atual growth hacker – profissionais que são contratados para atuarem focados full-time no crescimento de uma empresa  – completando que sem estas orientações, jamais teria logrado êxito em sua jornada como executivo. Ele afirma que jamais houve um período de igual dificuldade para os Seniors.

“Eles não acreditaram e não acompanharam as mudanças que a tecnologia e a Internet ocasionaram e ainda estão causando. São ‘’caramujos’’ tentando sobreviver em uma ilha de ‘’esquilos’’, resmunga esperançoso, parafraseando a analogia que faz o tempo todo durante a retórica de seu livro NETFÓBICOSEvolução Digital para SeniorsMEDO DE TECNOLOGIA É COISA DO PASSADO!

A netfobia.

A obra relata preceitos considerados heterodoxos ou modernos demais para alguns especialistas, e prevê o que já se fala há algum tempo no Vale do Silício, como por exemplo: ‘’ Se o seu negócio não passa por um smartphone, mude imediatamente! ”

O livro carrega consigo uma solução: um planejamento estratégico cuidadosamente dividido em 10 etapas, pronto para que o empresário netfóbico os coloque em prática, concebendo uma versão digital da empresa (startup), dentro de suas próprias dependências. O autor afirma que esta é a maneira mais tranquila, segura e de baixo custo para os ‘’netfóbicos’’ – pessoas com medo ou que não se adaptaram as novas tecnologias – efetivarem a mudança de mindset, que sai do modo analógico e imerge na Cultura de Transformação Digital.

O objetivo, explica, é desenvolver uma estratégia na qual uma das empresas abra as portas todos os dias como se estivessem no ano de 2025 por exemplo. Visa se conectar melhor com o novo e-consumidor e demandas que provavelmente ainda nem existam (mas podem ser mensuradas). Enquanto isso, a outra (a empresa tradicional ou analógica), absorva e implante os resultados disruptivos da ‘’startup’’ interna imediatamente. Ou seja, já colha os frutos (inovações aprovadas) no dia a dia rumo ao crescimento empresarial.

O duelo!

Da cidade de Tupã, onde se encontra a matriz da s4mkt, Ferrér conversou por Skype com a nossa redação. O conteúdo integral da entrevista você acompanha abaixo:

MO – De onde surgiu o termo Netfóbicos. É verdade que o senhor o registrou?

SF – Parabéns pela sua educação. Parabéns a seus pais. Muitos jovens atualmente não pronunciam mais a palavra ‘’senhor’’ ao se depararem com alguém mais experiente ou mais velho. É uma pena. Mas a culpa é da minha própria geração, que em boa parte não transferiu a essência dos ensinamentos mais importantes aos próprios filhos.  

            Respondendo a sua pergunta, Netfóbicos foi uma paródia que evoluiu após o sucesso da propaganda da empresa de TV a cabo NET. ‘’Somos NET’’, eles diziam; sobre tudo que era moderno, conectado ou ligado a tecnologia. E fobia, como sabemos, é medo. Não foi difícil juntar as duas palavras na época, mas depois esqueci do assunto.

            Há cerca de dois anos, em uma reunião de brainstorm com um amigo que tentava se engajar no projeto, me veio a palavra novamente na cabeça e só então registrei. Quero que se transforme em uma comunidade, em sinônimo da luta que devemos travar sobre o medo do ‘’novo’’, pois Ele não vai mais parar de eclodir na era digital.

            Na sequência, durante a imersão no assunto, verifiquei, no entanto, que os sintomas já haviam sido reconhecidos clinicamente e que a síndrome era tratada como tecnofobia, desde os anos 50. Como vemos, as coisas não mudaram muito. Só aceleraram demasiadamente.

MO – Por que o senhor decidiu que era hora de passar adiante a sua própria transformação digital?

SF – Estou chegando perto dos 52 anos de vida. Se tudo der certo – na média – me restam somente 20 a 25 anos produtivos, de fato. Estou convicto que sem a imersão na Cultura Digital, milhares de Veteranos, Baby Boomers e X estarão fadados ao insucesso, desemprego e ao desalento em um período bem curto. Aliás, já estamos vivendo este processo. Não consigo ver nada mais premente e desafiador na minha carreira do que tentar conseguir ajudar aos meus contemporâneos e me sentir vivo como empreendedor. Este espírito me trouxe até aqui, então aposto nessas características para me levarem até este meu novo objetivo.

            Outro fator, é que tive uma vida bem atípica e cheia de acontecimentos mirabolantes, passíveis de serem transformados em conhecimento, sobretudo na área de liderança, vendas e motivação. Com isso, pretendo passar o resto dos meus dias difundindo conhecimento através de livros e da Internet. A tecnologia me proporcionou isso. Acho espetacular deixar este legado.

MO – Atualmente o senhor defende a ideia de que a única maneira de uma empresa recuperar o tempo perdido e se equalizar para ter chances de concorrer no mercado é fundando uma versão digital da própria empresa.  De onde tirou este insight?

SF – Apesar de ter me consagrado como profissional de criação e marketing, esta estratégia não tem nada a ver com um insight. Tem a ver sim com o fato de sempre ter atuado como um promotor de disruptura e crescimento empresarial nas empresas e instituições por onde passei. Meu foco sempre foi vender mais e este processo foi evoluindo de maneira perseverante. Isso ocorreu mesmo com mudanças como o advento do Código do Consumidor e a Globalização. Mas nada se compara às adequações de comportamento que estamos sendo obrigado a aprender com a chegada da Internet e a disseminação das Redes Sociais.

            Apesar da minha geração (X) e a anterior (Baby Boomer) serem responsáveis por boa parte da tecnologia que se encontra disponível atualmente, não fomos capazes de tracionar a velocidade de raciocínio para absorver seus efeitos ou colher os frutos. Já para os Millennials (nascidos a partir de 1980), este ecossistema caiu como uma luva. Eles têm uma interpretação do sistema que muitos de nós não alcançamos ainda, pois são nativos da era digital.


‘’É QUASE UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA! NOSSA GERAÇÃO CRIOU A ERA DIGITAL, MAS NÃO CONSEGUE DECIFRÁ-LA OU USUFRUIR DE SEUS CONCEITOS.”


MO – E por que a instalação de uma célula (startup) dentro da empresa tem o poder de promover esta nova leitura da Economia Colaborativa?

SF – É quase uma tragédia anunciada!  Nossa geração criou a era digital, mas não consegue decifrá-la ou usufruir de seus conceitos. Esta transformação não tem a capacidade de se assumir sozinha. E ainda muito menos funciona no sistema hierárquico a qual estamos moldados desde a Revolução Industrial.  O sujeito tem que ser ‘’picado pelo bichinho da inovação’’ e ir transmitindo o vírus para todos! O sucesso vem em forma de inovação e soluções disruptivas, quando todos – ou a maioria – estão contaminados na empresa. Essas soluções fazem a engrenagem seguir rumo ao crescimento empresarial e ao mesmo tempo a mantém lubrificada. Acredite meu jovem: empresas estão se especializando em levar empresários e executivos para o vale do Silício (EUA) centro da inovação mundial para serem literalmente “picados’’.

     É ótimo! Mas não precisa tanto. A metamorfose é ocorre com a absorção de conhecimento. E isto pode ser feito através da literatura, da leitura e de milhares de vídeos e cursos disponíveis na Internet. Se a informação sobre tecnologia, inovação, novos processos, empreendedorismo, Inteligência artificial, Big Data e etc, chegar até o ‘’hospedeiro’’ e o mesmo tiver o mínimo de raciocínio lógico na veia, ele será definitivamente picado e contaminará sua equipe.

            Já ‘’contaminado’’, ou melhor dizendo; imerso nos preceitos da  Economia Colaborativa a outra maneira coerente de se espalhar o ‘’vírus’’ dentro da sua empresa é o contato corpo a corpo. Ao fundar uma startup dentro da sua estrutura, obrigatoriamente você terá que contratar pessoal já conectado com a Cultura Digital. É aí que essa heterogeneidade fará o resto do trabalho, transformando o ecossistema em um hub de inovação, um coworking movimentado. Um lugar propício para o desenvolvimento de ideias e soluções diferenciadas. Contudo, se o proprietário não for ‘’picado’’ de verdade, não haverá transformação, e a morte da empresa é eminente.  As falácias, bravatas e mentiras de líderes ilegítimos e sem conhecimento duram pouco tempo na era digital. O que difere da época analógica.

A contaminação.

MO – Qualquer pessoa pode se beneficiar deste método ou só as empresas?

SF – Sim. Todos precisam definitivamente entender que são, de fato, uma empresa. Que não existe mais  – já há muito tempo – as relações homem/trabalho como na fase mais produtiva da nossa geração.  Literalmente, temos que nos transformar em Você S/A se quisermos sobreviver aos novos tempos. Sobretudo após a reforma trabalhista que libera a obrigação das empresas em registrar seus profissionais até mesmo na atividade-fim.

            Nesta nova relação, não importa onde você está, qual sua cor, sexo, origem ou orientação sexual e se tem ou não um MBA. O importante é a sua capacidade real de entregar o seu conhecimento para uma empresa. Se existe uma condição sine qua non, talvez seja o domínio do Inglês. Isto sim faz MUITA diferença.

            Já no ambiente corporativo, não existe nenhum departamento mais importante atualmente do que o marketing digital, o antigo setor de T.I., pois a administração, as vendas e a logística atualmente são orientadas por dados e não mais apenas pela intuição ou a experiência, como cansamos de acompanhar em nossos antigos gestores.  

MO – Ao contrário dos best-sellers tradicionais, o senhor ressalta que seus erros são hoje boa parte dos ensinamentos do seu livro Netfóbicos. Como funciona isso?

SF – As gerações às quais me proponho a colaborar com o crescimento são empoderadas de verdades absolutas. Às vezes isto é bom, às vezes não. Mas uma destas verdades é a crença quase religiosa de se respeitar os mais velhos, os seniors por exemplo, devido a sua experiência. Eu tento apenas transmitir conhecimento. Me esforço para me superar como escritor e prover conteúdo sobre tecnologia e inovação sempre com o objetivo de orientar o meu público. Boa parte da minha geração culpa a tecnologia por seus fracassos. Isso é de uma inconsistência flagrante! Aliás, essa é uma verdade absoluta que não serve para nada, a não ser empurrar as nossas incompetências e falta de conhecimento para debaixo do tapete.

Veja o artigo A Tecnologia não tem culpa!

            Sou um empreendedor nato, um homem que foi provido com o dom da criação, do jogo de cintura. E isto me fez ser um franco atirador, um apostador e, muitas vezes, um sonhador. Acertei muito, errei muito e hoje sinto que gostaria que na minha época existissem as técnicas preditivas utilizadas atualmente pelas startups para desenvolver uma marca, empresa ou produto. Provavelmente eu teria uma criação de unicórnios – startups da Nova Economia que valem mais de 1 bilhão de dólares! (risos)

            Contudo, ao considerar o conjunto da obra, posso lhe afirmar com todas as letras que o maior erro da minha vida foi não ter me dedicado ao Inglês. Nossa geração procrastinou demais esta skill anunciada como importante diferencial nas entrevistas há décadas. Hoje pago um preço absurdo por este detalhe.

Se for pra errar, erre rápido!

            No Vale do Silício (Califórnia – EUA), berço mundial da inovação e da tecnologia – como já disse- , há um ditado fixado em quase todas as paredes ou murais de startups (sejam elas bem ou malsucedidas): ‘’ Se errar. Erre rápido. ’’

            Para a nossa geração era vergonhoso errar. Já na Economia Colaborativa, onde o conhecimento e a informação são moedas valiosíssimas, a história dos meus erros é passível de ser monetizada, transformada em cursos, palestras, livros e encontros. É reconhecida como a trajetória de alguém que tentou empreender e inovar com paixão. Detalhe: sem dinheiro! Antes mesmo das palavras startup e disrupção serem pronunciadas por aqui.  Vejo muitas diferenças entre nossa geração e os Millennials, mas enxergo semelhanças incríveis também. Vejo um ecossistema muito mais favorável para crescermos juntos. Neste sentido, considero ter dado a volta por cima e, se nada foi em vão, por que não compartilhar?